Hoje é dia 20 de Agosto e esta é a história de um alfinete. Mas oh!, não se trata de um mundano alfinete, este tem pedigree. E, mais importante e especial, é meu. O incauto, ao olhar para o MEU alfinete pode, quiçá os seus neurónios assaz peculiares assim o ditem, julga-lo por outro, um alfineti bulgaricu, e assim virar o apressado olhar para outro objecto que, por mérito ou aborrecimento, capte a atenção demandante da referida criatura. Mas este alfinete, no fim da cadeia evolutiva face ao seu antepassado metálico de sabe-se lá quando, não só é autêntico e especial como é capaz das mais maravilhosas façanhas. Não só prende coisas – o que ele não gosta porque não nasceu para isso – como também palita os dentes (não que eu o faça, muito menos em público), faça comigo e acima de tudo é um excelente e interessado companheiro que só não gosta de estar encarcerado nos bolsos. À custa disso ganhei umas quantas mordeduras monodentadas. Ainda hoje as tenho. Mas que rude sou, não me apresentei! Chamo-me António e sou médico. Tenho pouco mais de 40 anos, sou solteiro e bom rapaz. Mas porque vos conto deste magnificente e esplendoroso alfinete? Porque para além de ser meu é também o meu melhor amigo. E porque – deixem-me enxugar as lágrimas cadentes – desapareceu faz hoje dois dias. Eram dez da noite, estava eu cansado de morte, quando me espremi contra o estático colchão deixando a mente à deriva. Esqueci-me, coisa rara, de tremer a marota porta mas em segundos estava num sono profundo de invejar a Morfeu. Acordei sobressaltado às cinco da manhã. Lá fora ouviam-se sirenes e cheirava a terra húmida mesmo entre as paredes do meu quarto. A porta jazia escancarada projectando a luz de presença cor-de-laranja para os meus olhos intermitentes. O alfinete tinha-me abandonado. Ou melhor, a sua carapaça esquelética ali estava, na estante de sempre, mas já não falava comigo, estava inerte como uma pedra, um mero e inanimado objecto. Não pude fazer nada senão entrar em pânico e telefonar à polícia. Mas esta não me levou a sério… corri lá para fora, procurei em cada canto, nos caixotes do lixo, movido a pantufas e a tronco nu com um frio gritante e no meu desespero não reparo no carro movendo-se veloz na minha direcção.
Acordei no dia seguinte no hospital que fica mesmo ao lado da minha casa. Sinto-me só, sinto-me em baixo, como se estivesse a pairar baixinho, debaixo de água. Os médicos – meus colegas e amigos – olhavam-me agora com desdém, como se fosse um extraterrestre horrendo com uma doença terminal, incurável e altamente contagiosa. Na minha boca sinto um azedume familiar. Olho para a minha ficha clínica, de relance. Esquizofrenia, perfenazina, desde 9 de Agosto, entrada no hospital com fracturas múltiplas a 20 de Agosto. E então percebi que nunca mais iria ver o meu melhor amigo alfinete.
E logo agora que era tão tão feliz.
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