sexta-feira, 13 de novembro de 2009

sobre um caixotinho...

Certo dia, numa daquelas vielas deliciosas e assaz peculiares que o Porto tem, encontrei um caixote. Era um daqueles vulgares caixotes do lixo de formato industrial, verdes, destinados aos despojos humanos que nos lembram que as coisas perecem. Nele, para além do logótipo da CMP, havia um gigante smiley amarelo na sua face habitual e calculei que este só podia ser um daqueles objectos “porreiro pá” como disse o grande Sócrates, homem, filósofo, primeiro-ministro (tudo menos engenheiro não vá o homem ofender-se) e, com o andar, dou por mim a meter conversa.

“Ora então senhor caixote, como estamos nós hein?”
“Eu não sei quanto a si, mas eu cá com um banhinho ficava logo outro!”

Ou seja, o raio do caixote não era o hippie que eu esperava. Mas depois das apresentações, ganho coragem e pergunto-lhe, ou afirmo, que “deve ser muito chato – horrível até – ter que levar com todo aquele lixo, todo o dia e todo o ano!”. O caixote fica alerta, estica o peito de plástico e responde “não senhor! Tenho muito orgulho em ser colector de lixo!” (ele achava “caixote” uma palavra algo ofensiva). Por momentos fiquei sobressaltado: nenhum humano diz-se contente com o seu emprego, é uma espécie de caracterização humana (homo sapiens, labore discontentus), mas por outro lado “aquilo” não era humano. Comecei logo a magicar no que queria ele dizer e não me contive, perguntado – arriscando à impertinência – porque raio gostava ele de tal profissão. O que me respondeu eu não esperava: “porque, meu caro Humano, sou até parecido com vocês. No meio de tanto lixo também há tesouros, anéis de ouro que aqui vêm parar, livros antigos, tudo o que possas imaginar. Eu não os posso ver, mas sei sempre que aqui estão, basta procurar e não desistir nunca. Sei de alguns de vocês que também assim são. Só não saberei. Mas há uma coisa em que somos melhores que vocês, muito melhores…”
“Em quê?”, pergunto.
“É que sem asco nem chinfrim, todos os dias, por pouco e mal que seja, alimentamos os pobres que nos procuram. Quantos de vocês, humanos sábios, o fazem?”
E vim-me embora com o coração deslocado e mente cheia. Que grande lição. E tudo isto de um caixotinho.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

dos Homens



"You're only given a little spark of madness. You mustn't lose it."
by Robin Williams


Não sei se alguma vez o disse mas eu cá gosto de epígrafes. E mais do que isso nem sempre estou com grande imaginação ou paciência para histórias de fadas ou Homens. Às vezes gosto de falar – ou escrever – só porque sim. E gosto de frases feitas, o que não é politicamente correcto. Gosto delas como quem gosta de um puzzle puído e triste a um canto. Ensinam-nos a viver, ou mesmo a renascer. Mas adiante, o homem é uma espécie de louco disfarçado (isto, desculpem-me, fica melhor em inglês) madman in disguise e nós, os psicólogos ou pelo menos psicólogos-prospectos (uma espécie de bolo já enformado mas por cozer), temos não só agora a obrigação como o prazer – tomara – de lidar com todos esses homens e mulheres com problemas. É ou não é um privilégio? Ao longo do dia, no café ou na rua (ou ao nosso lado agora mesmo) encontramos dezenas de pessoas. Aqui neste comboio fashion vejo desde miúdos aflitos por liberdade a meninas com 25 anos de testa mas 10 de corpo, com calças a lembrar espartilhos de damas encarceradas e tez do pó-de-arroz de outrora. Faço zoom. Dou por mim a entrar no tipo da frente. Que pensa ele? Que SENTE ele? O que vive ele? Vejo-o, nervoso, a cofiar o telemóvel como se se tratasse de um touro adormecido ou um vulcão aceso e temperamental. Espera uma frase, talvez um voto esperançoso, um Amo-te ou um vou lá estar. Talvez espere a morte de alguém, talvez no próximo minuto todo o mundo lhe fuja e falte. Ou que ganhe o Euromilhões que me tem faltado. Ou talvez o telemóvel nada tenha a ver com o assunto. Algo que viu, que sentiu, que viveu. Não o sei. Ao navegar pelos meandros da cabeça à minha frente a trupe da Carrinha Mágica. Mas pouco me interessa o aneurisma wanna be que jaz ali no occipital: vejo hologramas. E nos hologramas uma vida. E hoje à noite há miolos para o jantar. Quantas memórias comeremos? Mas isto são outros voos.

Escrevo hoje talvez para me convencer da maravilha que somos nós próprios. Podemos ser cocktails de perturbações, mas somos Homens. E apesar de não termos (ainda) curado os cancros ou eliminado a pobreza no Mundo, fomos à Lua e vimos outros planteas e esperanças vãs tornadas febre autêntica. Num beijo vemos figuras - alucinamos, não é? - e num olhar promessas. Somos mini-psis, mini tudo, não escrevemos para um Pulitzer ou um Nobel (sonha, meu estafermo, sonha): mas, diabo, somos únicos. Capazes. Humanos. E Amamos. Quem Ama pode tudo: a felicidade eterna ou o mais fundo desespero, o Ying Yang que nos faz ser humanos. É uma roleta russa, mas o Homem abranda e avança. E para ajudar ao avanço lá vamos estando. Sejamos psicólogos ou ‘simples’ amigos.

(fotografia Copyright André Silva 2009. Todos os Direitos Reservados.)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

memória de alfinete

Hoje é dia 20 de Agosto e esta é a história de um alfinete. Mas oh!, não se trata de um mundano alfinete, este tem pedigree. E, mais importante e especial, é meu. O incauto, ao olhar para o MEU alfinete pode, quiçá os seus neurónios assaz peculiares assim o ditem, julga-lo por outro, um alfineti bulgaricu, e assim virar o apressado olhar para outro objecto que, por mérito ou aborrecimento, capte a atenção demandante da referida criatura. Mas este alfinete, no fim da cadeia evolutiva face ao seu antepassado metálico de sabe-se lá quando, não só é autêntico e especial como é capaz das mais maravilhosas façanhas. Não só prende coisas – o que ele não gosta porque não nasceu para isso – como também palita os dentes (não que eu o faça, muito menos em público), faça comigo e acima de tudo é um excelente e interessado companheiro que só não gosta de estar encarcerado nos bolsos. À custa disso ganhei umas quantas mordeduras monodentadas. Ainda hoje as tenho. Mas que rude sou, não me apresentei! Chamo-me António e sou médico. Tenho pouco mais de 40 anos, sou solteiro e bom rapaz. Mas porque vos conto deste magnificente e esplendoroso alfinete? Porque para além de ser meu é também o meu melhor amigo. E porque – deixem-me enxugar as lágrimas cadentes – desapareceu faz hoje dois dias. Eram dez da noite, estava eu cansado de morte, quando me espremi contra o estático colchão deixando a mente à deriva. Esqueci-me, coisa rara, de tremer a marota porta mas em segundos estava num sono profundo de invejar a Morfeu. Acordei sobressaltado às cinco da manhã. Lá fora ouviam-se sirenes e cheirava a terra húmida mesmo entre as paredes do meu quarto. A porta jazia escancarada projectando a luz de presença cor-de-laranja para os meus olhos intermitentes. O alfinete tinha-me abandonado. Ou melhor, a sua carapaça esquelética ali estava, na estante de sempre, mas já não falava comigo, estava inerte como uma pedra, um mero e inanimado objecto. Não pude fazer nada senão entrar em pânico e telefonar à polícia. Mas esta não me levou a sério… corri lá para fora, procurei em cada canto, nos caixotes do lixo, movido a pantufas e a tronco nu com um frio gritante e no meu desespero não reparo no carro movendo-se veloz na minha direcção.

Acordei no dia seguinte no hospital que fica mesmo ao lado da minha casa. Sinto-me só, sinto-me em baixo, como se estivesse a pairar baixinho, debaixo de água. Os médicos – meus colegas e amigos – olhavam-me agora com desdém, como se fosse um extraterrestre horrendo com uma doença terminal, incurável e altamente contagiosa. Na minha boca sinto um azedume familiar. Olho para a minha ficha clínica, de relance. Esquizofrenia, perfenazina, desde 9 de Agosto, entrada no hospital com fracturas múltiplas a 20 de Agosto. E então percebi que nunca mais iria ver o meu melhor amigo alfinete.
E logo agora que era tão tão feliz.